4 segundos…o reserva.
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4 segundos…o reserva.

continuação da parte 1    4 segundos

 

 

O Reserva

 

O velame principal de meu equipamento era do tipo “hipersustentado”, uma evolução dos pára-quedas redondos: formato ovalado, varias fendas laterais e traseiras que lhe davam alguma velocidade horizontal, aumentavam a sustentação e o controle direcional
Ao olhar para cima verifiquei surpreso que o bordo de ataque do velame (parte da frente) não estava inflado, o velame estava parcialmente embolado junto a um grupo de linhas de sustentação. A parte do meio e traseira estavam infladas, o que deu a impressão aos espectadores de que o velame estava 100% aberto. Estiquei o braço esquerdo e senti o vento passando entre os dedos e calculei que naquela velocidade provavelmente quebraria uma perna ou algo pior na aterragem. Olhei o altímetro e o ponteiro se dirigia para os 600 metros, rapidamente agarrei os dois batoques acima da minha cabeça e puxei-os e soltei-os freneticamente, dando solavancos na tentativa de liberar o velame preso.  Sem sucesso, após algumas tentativas conferi novamente o altímetro e seu ponteiro atingia os 400 metros, obrigando-me a tomar imediatamente a decisão de acionar o pára-quedas reserva.
Naquela época ainda usávamos o reserva na frente , na região abdominal. Juntei as pernas, levando-as um pouco a frente, levei as mãos aos ombros e acionei os DLVs (Dispositivo de Liberação do Velame), um em cada ombro. O velame se desconectou do meu equipamento e novamente entrei em queda livre , desta vez de costas em relação ao solo . Automaticamente minha mão direita procurou o punho de comando e puxei-o instintivamente para fora, mas para minha surpresa não consegui agarrá-lo. Olhando então para o punho metálico rapidamente pressionei o polegar contra a bolsa, agarrei-o com os dedos e extrai o punho, abrindo o invólucro e expondo o velame para abertura. Mas ..
Olhando estupefato para meu abdômen eu via as quatro abas da bolsa aberta drapejando violentamente, o velame branco dobrado e intacto, recusando-se a sair e inflar. Meu cérebro entendeu instantaneamente o que estava acontecendo: Eu estava caindo em queda livre, de costas para o solo, tronco arqueado a frente e pernas para cima, ocasionando um pequeno vácuo bem em cima do velame reserva. Além disso meu reserva não possuía um sistema de extração automática do velame (pilotinho ou um pequeno pára-quedas extrator com molas), de forma que , se eu continuasse a queda naquela posição atingiria o solo dentro de mais alguns segundos.  Com a mão esquerda dei um violento soco na lateral da bolsa e o velame se deslocou para a direita, sendo que ainda tentei puxa-lo com a mão direita. Mas a força do vento relativo o arrancou da bolsa e ele subiu velozmente em direção ao céu azul, passando por entre as minhas pernas. Esta é uma visão que ficou marcada para sempre na memória, minhas pernas afastadas, meu macacão laranja com detalhes em azul, tênis bege, o velame totalmente branco se dirigindo para o azul celeste. No processo de socar a bolsa e tentar extrair o velame abaixei os braços e entrei em uma posição quase vertical, de cabeça para baixo. No instante seguinte o pára-quedas inflou, meu corpo se endireitou em um baque e ao olhar para cima tive a linda visão de um pára-quedas 100% aberto , dando-me total sustentação. Entretanto o velame apresentava um “twist” nas linhas, provavelmente eu estava caindo girando em torno do meu eixo, então girei meu corpo duas vezes no sentido contrário ao “twist” e endireitei-me.  Olhei para o solo e tive um dos grandes sustos de minha vida, pois estava bem baixo e em mais alguns instantes aterrei ao lado da pista de taxi.
Caminhando de volta ao Aeroclube, carregando o pára-quedas entre os braços, a multidão me observando de olhos arregalados, um amigo paraquedista bem mais experiente que eu se aproximou e me disse : “Tchê, tu abristes teu reserva quase no limite, mais uns 4 segundos em queda livre e não estaríamos aqui conversando.”

 

 

As lições
Algumas lições ficaram deste episódio. Tudo que vivemos nos deixa marcas e temos que ser sábios para reconhecê-las e aprendermos com elas.  Naquele dia eu confirmei o acerto de, em tudo que empreendermos nunca nos esquecermos de um plano B, principalmente se estivermos praticando uma atividade de risco. Meu plano B era o reserva e não bastou apenas eu te-lo comigo, fui salvo pelo total conhecimento dos procedimentos de sua utilização. Também comprovei o acerto em estar sempre buscando informações sobre o esporte e a segurança no mesmo. Um aprendizado que me seguiu foi o de procurar sempre visualizar o objeto que se pretende utilizar ou conferir.  Ao tentar acionar o punho do reserva intuitivamente, sem visualizá-lo, eu perdi instantes preciosos ao ter que repetir a operação. Felizmente eu tinha tempo para isto pois iniciei o procedimento de liberação do velame principal ainda em uma altitude segura. E se eu tivesse insistido em tentar abrir o velame principal em pane e deixado para me desconectar do paraquedas principal em uma altitude mais abaixo ?
Outro interessante aprendizado foi a confirmação de se respeitar sempre o perigo . Em toda a ação que trás uma carga de perigo embutida  mas a enfrentamos e seguimos em frente nos tornamos mais fortes. E justamente por respeitar a atividade e seus riscos é que eu sempre repetia no solo as seqüências de emergências, conferia e reconferia meu equipamento e subia na aeronave confiante no meu treinamento e mentalizando durante o vôo o meu salto. Já havia lido inúmeros relatos de fatalidades envolvendo paraquedistas experientes e muito autoconfiantes. Raramente alunos sofrem acidentes, a quase totalidade de fatalidades acontece entre os mais experientes e eu não tinha o mínimo interesse em virar estatística ou manchete de jornal. Talvez meu único erro, e que poderia ter me custado a vida, foi o de retirar o pilotinho do reserva. Retirei-o porque havia lido relatos de acidentes envolvendo pane total no paraquedas principal e o pilotinho do reserva ter se embaralhado no velame em pane, ocasionando fatalidades. Mas eu estava atento e consciente da ausência do mesmo.

Epílogo
Posteriormente voltei a saltar, mas a minha vida pessoal , minha carreira militar, a economia do país e os altos custos do esporte não se coadunavam e então encerrei precocemente minha participação na atividade. Desfiz-me de meu equipamento em 1989, guardando comigo as lembranças, algumas poucas fotografias e o meu macacão de saltos. Ele ainda está comigo, sem uso há pelo menos 30 anos e de vez em quando retiro-o do plástico apenas para admirá-lo , pois nem adianta mais vesti-lo, já não é mais o meu número…

 

Texto e imagens: Reinaldo Neves
Aeronave : Piper modelo PA-20, prefixo PP-GPD
Paraquedas : Principal modelo Papillon e reserva 24 pés (ex aeronave Xavante FAB)
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